como universo
junho 3, 2011
Estava aqui mexendo em tinta preta com a mão toda suja, que é normal quando se faz o tipo de cagada que costumo fazer. No meio do processo tinta, olhei surpresa pra minha pele das costas da mão – milhões de riozinhos. A tinta preta abriu espaço pelos microcampos, microestradas, fazendo um desenho tão bonito na pele que mais parecia chão, raiz de planta. E eu fiquei olhando, queria ter pra sempre, tirar foto, mas a pilha não funciona. Resolvi olhar bem pra guardar na memória – minha pele terra. E lembrei de uma conversa ontem com a minha mãe, na qual ela dizia como a gente vira pedra, volta a fazer parte das coisas quando morre, como tudo passa mas continua essência. E eu pensei agora, existem padrões. Eu rio azul, eu terra marrom, eu estradas da pele, eu capilares vermelhos. Eu célula, eu átomo. De que adianta estudar química sem perceber que o átomo é a coisa- a gente na menor forma e a gente tudo. Átomos agrupados deram origem a esse texto, essa vontade. E quando a gente morre? eu terra, eu coisa? E a vontade-pensamento? Mas são perguntas muito além, que talvez um dia eu tente entender. Por enquanto é bom me ver sendo uma vasta estrada de tintas. Porque olhando assim, grande, pra minha mão suja, é como se eu estivesse sobrevoando nossas construções e a natureza – como se eu fosse o universo.
sobre o corpo e o resto (ou o corpo e tudo)
abril 24, 2011
Eu fiquei pensando porque tanto tempo sem escrever. Fiquei pensando porque a gente perde o jeito, porque desacostuma a sentir. Durante esses meses sem dizer uma palavra, mantive apenas a sensação de segurar frequentemente as pontas de alguma coisa pra não cair no choro. Às vezes eu não aguentava e me desfazia em lágrimas, sem saber o porquê. Acabo de perceber que a minha auto repressão (quem vai ler, ninguém lê, ninguém liga, é ridículo) não acabava só com meu ‘descarrego’, mas me levava para fora da realidade. Nada aqui – domingo de páscoa, gente na rua, chocolate, carro e gato – nada disso é real. Escrever é. Essa sensação boa de brisa de abril é. E a palavra é exatamente essa: sensação… porque o resto não importa.
A Páscoa, assim como o Natal, traz uma impressão enorme de estar vivendo pelos outros. Eu não sei se é a alegria (ou depressão) do inconsciente coletivo, mas sei que vem dele as compras compulsivas, os desejos, a comida, qualquer coisa que deixe a gente mais fora da gente o possível, para viver o dentro da gente nos outros. Cansa tanto. Clarice disse no final do Água Viva, se não me engano, que viver é incômodo e o corpo exige muito da gente. Acho o contrário: sim, viver é incômodo, mas a gente superexige do corpo. Optamos por viver no mundo do corpo, no plano do corpo, nos valores do corpo. O feriado de hoje é uma celebração à volta de um líder espiritual ao seu corpo. Não há como negar que vivemos numa ditadura do que é concreto, palpável, a que atribuímos valor. Acho que isso é só uma reação nossa ao sofrimento que é ver as coisas que julgamos reais pela perspectiva da realidade em si. Sentir liberta, libertar-se dá medo.
Continuo na toca com medo de olhar pro mundo lá fora, pros olhos dos outros. E vou entrando mais e mais em mim, o que não parece ruim, pelo menos por enquanto. Não sei como ganhar dinheiro, não tenho grandes planos pro futuro além de querer aprender mais e mais e me volto para um mundo menos prático – talvez eu esteja vivendo o extremo oposto. A única coisa que sei é que, nessa manhã de Páscoa, a gente pode deixar as preocupações para segunda, ignorar as festas familiares, sentar num banco e se deixar envolver pela brisa do mês, que coisa melhor não existe. Acho que hoje o tempo e o dinheiro param um pouquinho (irônico, já que a data espiritual trata de um ode ao corpo) para se deixar sentir. Pelo menos até abrir o ovo e ligar a TV.
depois de uns 20 anos
abril 23, 2011
Eu queria poder viver sob o céu amarelo de van gogh. Eu queria a cor do barro no chão e mais nada, eu queria terra, secura, e nada de maresia. Eu queria pássaros e que fosse espesso, que a cidade tira de mim o amor ao que é essencial. Não me basta o cinza ralo, mas apetece o exagero de cor alegre e a fartura de comida, o sol quente e o bolo de fubá farinhoso. Eu queria viver sob as cores quentes e laranjas, sob um vermelhoso sol de marte, pra nunca ter medo da noite úmida. Eu queria não ter medo da lua.
Mas essa coisa de magnetismo terrestre é muito maior que a gente e ela chega fria, imponente, com corvos e tudo o mais. E as horas escuras e o tremor nos ossos se prolongam para um caminho que evito por, admito, puro medo: o caminho de entrar em si mesma.
Coisa feminina que aflora de cor leitosa. Os seios endurecem (como se estivessem saindo do corpo para ir de encontro à noite), vão chegando os arrepios que traduzem o quão profundo vai a mente e, ainda mais importante, o silêncio crescendo pelos campos que moram na imaginação. Quando ela chega, fazer ruído é ofensa. É que a noite anuncia a hora da meditação.

–
texto pequeno que eu achei aqui de algum tempo pra voltar depois de muito tempo…
obrigada agenor e obrigada pai por cobrar, às vezes a gente precisa de um empurrão.
O tempo se desfaz em voltas grandes
Eu sorrio caída, deixando cair
E finjo que tudo tem uma extensão quase infinita
E meu corpo cobre o chão em longas pausas
Aumento a área de contato com a madeira,
o concreto, o suor, o vidro
E eu mesma perco a linha, o sentido
Transpirando em longas pausas
Os olhos ardem não sei de quê
Todo o corpo arde por dentro
E eu já nem sei mais,
perdida.
E com a força de uma explosão, um tornado, uma tempestade
Me arrancam da terra os outros
E eu tento me grudar no chão como se fosse possível,
Pegável.
Eu mesma já não sei mais, e todos me olham putos
A vida corre em gotas, numa torneira mal-resolvida
Eu não posso dizer que posso com as minhas palavras ou outra coisa qualquer,
Porque nem mesmo sei se ainda sou
Que eles me arrancaram com olhos famintos
E querem comer meu fígado
E eu sou eu e não sou mais porque isso eles tiraram de mim
Daí eu mesma me desfaço acordada,
Em longas pausas
Não queria dizer que estou inspirada, ou que espero pra te ver há muito tempo. Às vezes me guardo para sentir-me inteira, e também canso de mim, quem não cansa? E vem o enjôo, que é também coisa corriqueira. A gente acostuma a deixar não dito, também, e se prende nas frases feitas, nos sentimentos sublimes, em tudo que pode ser, de alguma forma, previsível. E se reflete, claro. Agora mesmo estou me imprimindo em palavras que nunca havia pensado que sairiam da minha boca, quando no entanto, nos últimos dias, estivessem tão constantes; por dizer. Continuo enganando-me com perspectivas previsíveis, como a vontade de te ver agora. E é mentira, a vontade é de mim. A noite me consome e eu deito sobre o chão frio, pensando em você e muito bem enganada, que até que eu pare de deitar no chão frio apenas como uma auto-sugestão de sofrimento, vou continuar sem merecer sequer o amor próprio.Eu tenho medo de ser muito clara, tenho medo de confabular sobre tudo e todos, e que confabulados eles me estranhem. Sinto correndo pelo corpo uma propensão à solidão, sobretudo na rua. E expô-la em palavras cria a tal casca, que afasta devagarinho a gente do mundo. Eu tenho medo.
Pode ser que depois de escrever eu me veja mudada, mas uma força anormal (a do próprio raciocínio) me traz a certeza de que nada vai mudar. Que passem anos, eu deitada neste chão frio e os insetos habitem aos poucos meu cabelo, junto da solidão, e que eu continue com fome, como agora. Ah, a fome mantida em segredo, satisfação. O sorriso do canto da boca de um sofrimento silencioso. A saudade crescendo, nessa fantasia em que meus cabelos crescem e servem de loft para baratas. Elas percorrendo meu corpo e eu sem me mexer, tamanha falta que sinto. Além do sorriso da dor e do nojo contidos, que se destaca entre tanto cabelo. Sua vida paralela, sempre. Suspensa, remota, me corrôo por dentro da fantasia da nossa vida, quase também suspensa, porque percebo que não me lembro do seu rosto. Ou da sua voz.
Sempre que te escrevo o que digo se faz um começo. Eu diria tópicos, mas não gosto de ser categórica. O tempo se arrasta, mas o que escrevo dá voltas sobre o já escrito. E fico maluca comigo mesma, tentando arranjar um sentido nessa bagunça que restou da solidão contida. Todas as coisas vão se juntando nela, eu já não tenho idéia ou conceito, dia ou noite.
Amanheceu. São quase sete da manhã e o céu está acinzentado, mas um feixe de luz laranja cruza o prédio, reflete naquelas janelas grandes e torna todo o apartamento igualmente alaranjado, quase como um fim de tarde. A fome continua, mas em breve vou dormir. Tem feito muito frio, aqui no Rio. Apesar de amaldiçoar a cidade no verão, admito que esse clima dói os ossos, conserva a fome, deixa tudo estático. Agora mesmo são quase sete, mas o dia teima em não amanhecer, que trazer calor é luxo que a manhã não se dá. Não penso mais em deitar no chão: esfriou. Quase tenho vontade de caminhar no aterro, e permanecer acordada, para sempre, neste tempo sem dono nem fim. Eu tenho medo…
Acabei de lembrar que existe a vida, deve ter sido você que me mandou a esta hora essa pessoa. Ofereceu-me um casaco. Vai preparar o café. Eu, pescada no meio do medo, despertei solitária, envergonhada. A fome dará lugar ao pão mal digerido, o dia começa. De vez em quando me pergunto se é válido, isso do dia começar. Ou se é valida a forma em que me perco. Ou se ainda a gente pode se dar o luxo de impedir o tempo, como a manhã. Não, ela também se apressa, são sete horas agora. O céu ainda é o mesmo, mas sete é tempo marcado: posso ouvir os carros, ônibus, vans. Em breve virão os passos, o homem montando a banca, as conversas matutinas, que num pulo dão lugar aos xingamentos de trânsito na hora do rush.
De repente a sua voz veio à minha cabeça, num raio. Prometo não esquecer, pelo menos até a próxima madrugada. Vou sair em dois minutos.
Eu queria poder estender os minutos em tempo maior
me deixar levar pelo sopro das horas inventadas
E do invento transpor as palavras em calor
Tenro
E de respiração
Poderia um dia perder o tempo, o meio, a forma
fórmula
Mas dentro sempre corre aquela coisa quente,
quase gosma,
vital.
Da coisa quente e lenta vem aquele cheiro de merda
que eu consumo em grandes passos,
estufo os pulmões
cresce lá dentro o desejo ancestral
E mais um passo
E um minuto a menos
coisa
julho 31, 2010
Não passou por minha cabeça descrição alguma. Só esse aperto no peito, a vontade de chorar. Só porque eu vi um poema qualquer, que nem interpretei ou julguei bom ou ruim. Mas, por Deus, essas lágrimas contidas e todo o corpo contraído num arrepio. É que de repente eu lembrei: existe a palavra. Meus olhos corriam a página e vi o nome do Sartre. Lembrei que deixei há muito um conto dele pela metade. E outro arrepio pelo corpo: a letra e a folha, é só preto e branco mesmo, como se não precisasse de mais. As entrelinhas… existe a poesia. Existe a gente também, e as letrinhas entram na’lma. E a gente passa a existir ainda mais.
vontade
julho 3, 2010
Veio agora essa vontade de escrever que não chegava havia tempo. Foi uma dor chata, uma vontade de ler Clarice, uma ponta de raiva, espécie de cansaço. É, acima de tudo, essa angústia quase-felicidade, essa vontade, que mais que qualquer sentimento é uma vontade. Mas uma vontade sem ambição. Como é dito quando se está disposta, é isso. É uma disposição. Não do tipo de sair, acho que estou suscetível a qualquer idéia, daí a vontade de ler Clarice. Hoje especialmente estou suscetível. E eu podia estar com tanta raiva de tanta coisa, como a derrota do Brasil na Copa, ou no mínimo comentar o patriotismo que será em pouco tempo suspenso até dois mil e quatorze. Mas tudo na verdade vai tão além… é como se eu perpassasse por todo o tipo de sensação que poderia ter sobre qualquer coisa e rapidamente me desprendesse delas, com a mesma facilidade com a qual encontrei. A felicidade ou a irritação não vão além, mas chega a coisa que é mais uma indiferença. Daí comecei a procurar na estante os livros da Clarice que não leio faz tempo, folheei um já lido, escolhi outro que sempre comecei, recomecei e adiei a leitura, por achar que ainda estava muito cedo pra ler. E agora vou tentar de novo. Se engata, não sei. É que ando muito suscetível…
mais cegos e burros
junho 19, 2010
Eu não podia deixar passar em branco o aniversário do Chico. Também não imaginava, quando há uma semana lembrei que estava chegando esse dia, que o mundo estaria abalado pela morte do Saramago, ontem.
Comecei a ler alguns de seus contos e uma história infantil há menos de um mês, quando minha professora me emprestou dois livros. Sobre o ‘a maior flor do mundo’, até pensei em fazer a tal releitura, que ele mesmo sugere ao final do livro, mas guardar só pra mim. E isso tudo veio à minha cabeça na hora que li, no Globo News: morre o escritor José Saramago, com 87 anos. Foi uma estranheza tão triste, um choque. No fundo, me dizia que não dava mais tempo; veio uma solidariedade repentina: será que ele leu sua história recontada, mais bonita? E me dei conta do quanto a vida é efêmera. Vivia pensando no quanto seria maravilhoso ser contemporânea à Clarice, mas deixei passar Saramago. E os outros já vão… me senti mal.
Então hoje celebro a vida de Chico, que ele viva ainda muitos anos, sessenta e seis é pouco. Assisti ao debate sobre a ditadura no Pedro II agora pouco, e veio novamente aquela indignação corriqueira em relação ao silêncio dos já citados desinteressados, o horror aos que vegetam em sociedade. Saramago morreu, o tempo passa, o mundo fica mais amargo, os pequenos grupos cada vez mais focados nos próprios assuntos. “O mundo ficou mais cego e burro”, e daí é só uma questão de tempo. Celebremos o que Saramago, Chico, torturados políticos e muitos outros nos deixaram, que dói demais o esquecimento. Novamente, isso não acaba aqui…
Carioca
junho 17, 2010
só pra descontrair, a primeira música do cd ‘As Cidades’, que pra mim é um dos melhores do Chico. Depois de amanhã é aniversário dele!